Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo na solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz
Lisboa, Quarta-Feira, 03 de Janeiro de 2013 - Apresentamos
a seguir a homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa Dom José Policarpo na Missa da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz, Realizada na Paróquia de Rio de Mouro.
“A Mística da Paz”!!!
1. Neste Dia Mundial da Paz o Santo Padre Bento XVI dirigiu à Igreja
uma Mensagem, forte e profunda, que ilumina com o dinamismo cristão da
paz as diversas situações concretas da sociedade atual e, de modo
especial, as sociedades europeias, a atravessarem uma profunda crise de
civilização. Seria importante que todos os cristãos e todos os homens
que procuram a Paz, pudessem ler essa Mensagem. Neste contexto o papel
de uma Homilia só pode ser o de apontar as principais linhas de força
dessa Mensagem, lançando luz sobre os problemas e situações que também a
nossa sociedade está a atravessar. Num ano em que a União Europeia foi
distinguida com o Prémio Nobel da Paz, sublinhando o seu papel positivo
na manutenção e construção da paz, depois do drama da Segunda Guerra
Mundial, o Santo Padre desafia a Europa a interrogar-se se a paz que
conseguiu manter é a paz perfeita ou se não há um longo caminho, nunca
completamente percorrido, para a edificação de uma paz verdadeira, em
que os Povos, como membros de uma grande família, sintam a grandeza da
dignidade da pessoa, onde a experiência comunitária levará à experiência
do amor e da comunhão.
Bento XVI intitulou a sua Mensagem com uma das bem-aventuranças da Montanha:
“Bem-aventurados os obreiros da Paz”.
O texto evangélico acrescenta: “porque serão chamados filhos de Deus”
(Mt. 5,9). E lembra que, na mensagem bíblica, as bem-aventuranças são
promessas. Não são meras recomendações morais, “mas consistem sobretudo
no cumprimento de uma promessa feita a quantos se deixam guiar pelas
exigências da verdade, da justiça e do amor” (1).
Esta promessa, que feita no contexto do anúncio do Reino de Deus,
toca profundamente o coração de todos os homens, mostra a paz como um
caminho a fazer, que só atingirá a sua plenitude no Reino dos Céus. “Em
cada pessoa – diz o Papa – o desejo de paz é uma aspiração essencial e
coincide, de certo modo, com o anseio por uma vida humana plena, feliz e
bem sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um
princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um
desenvolvimento integral, social, comunitário, que faz parte dos
desígnios de Deus para o homem” (2). A busca da paz coincide, assim, com
a luta pela realização da plenitude humana, é um caminho que supõe uma
verdadeira mística da paz, enraizada na cultura e concretizada nas
opções práticas para a vida das comunidades humanas. A generosidade
pessoal, a organização da sociedade, as estruturas políticas e
económicas precisam de ser mobilizadas por essa mística da paz.
Uma conceção imperfeita de paz pode enfraquecer a exigência desta
mística da paz, como ideal de humanidade. Há 50 anos o Concílio Vaticano
II lembrava: “A paz não é só a ausência de guerra e não se limita a
procurar o equilíbrio entre forças contrárias… ela é «obra de justiça»,
lembrando que “a paz não é realidade adquirida uma vez por todas, mas
algo a construir sem cessar»” (3). É um ideal de humanidade, que os
cristãos partilham com todos os homens e que exige o empenhamento de
todos.
O Santo Padre recorda as principais concretizações desta construção da paz como “obra de justiça”.
2.
A paz é uma experiência de comunhão.
Citando João XXIII, o atual Papa recorda: “A paz implica
principalmente a construção de uma convivência humana baseada na
verdade, na liberdade, no amor e na justiça” (4). Faz parte da verdade
profunda do homem, encontrar a sua realização na comunhão com os outros
homens. A paz é, assim, vitória sobre o individualismo e os egoísmos,
busca, antes de mais, o bem-comum de toda a comunidade. Bento XVI é
claro: “A ética da paz é uma ética de comunhão e de partilha. Por isso é
indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e
éticas fundadas sobre motivos teórico-práticos meramente subjetivistas e
pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se
inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins e
vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos
instrumentos, na técnica e na eficiência” (5).
Sem este objetivo de construção da comunhão, em comunidade, perde-se o
sentido da prioridade do bem-comum, da comunidade em todos os seus
níveis: mundial, europeia, nacional, local, familiar. É preciso
denunciar, com lucidez e coragem, os erros sociais e políticos em
sociedades que não dão prioridade ao bem-comum. O Papa afirma: causam
apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes
desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade
egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um
capitalismo financeiro desregrado” (6).
Esta paz edificada com generosidade, centrada no amor fraterno, é
“dom messiânico e obra humana”, isto é, é esforço da liberdade apoiada
pela fé e pela força de Deus. O Santo Padre recorda-o: “Para nos
tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à
dimensão transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai
misericordioso, pelo Qual se implora a redenção que nos foi conquistada
pelo seu Filho Unigénito. Assim o homem pode vencer aquele gérmen de
obscurecimento e negação da paz que é o pecado em todas as suas formas:
egoísmo e violência, avidez e desejo de poder e domínio, intolerância,
ódio e estruturas injustas” (7).
3.
Obra de liberdade, a paz é um dom de Deus.
É esta certeza que nos permite acreditar, em todas as circunstâncias,
que a paz é possível. Ela é a aventura do amor que nos foi comunicado
pelo Espírito de Jesus. A paz … na novidade humana enraizada na Páscoa
de Jesus: “A Paz é uma ordem vivificada e integrada pelo amor”, Cristo é
a nossa paz. É preciso, é urgente, anunciar de novo e por caminhos
novos, a importância de Jesus Cristo para o futuro da humanidade (8).
Esta dimensão transcendente da paz está no centro da revelação bíblica,
como escutámos na Primeira Leitura desta celebração: “O Senhor te
abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te
seja favorável. O Senhor dirija sobre ti o Seu olhar e te conceda a paz”
(Num. 24-26). “O Senhor dá força ao seu Povo; o Senhor abençoará o seu
Povo na paz”, reza o Salmo 29). Nas nossas sociedades europeias é
urgente voltar a valorizar a sabedoria contida na religião, constitutiva
de um quadro cultural que favorece e exige uma mística da paz.
4. Se não tivermos medo de Deus e da sua intervenção na história a
favor dos homens, se não nos deixarmos embriagar pela total autonomia do
homem e do seu poder na construção da paz, poderemos encontrar em
conjunto os verdadeiros pilares da construção da justiça e da paz.
* A promoção e defesa intransigente da dignidade da pessoa humana, a
promoção da vida em todas as suas etapas e vicissitudes, a defesa dos
direitos fundamentais da pessoa humana para que possa construir a sua
dignidade, entre os quais está o direito ao trabalho (9).
* Os próprios modelos económicos e políticos de organização da
sociedade têm de visar esta construção da paz como obra de justiça (10).
* Fortalecer a Família. O Santo Padre afirma: “A família é um dos
sujeitos sociais indispensáveis para a realização de uma cultura de paz”
(11). Somos um País a lutar corajosamente para vencer um período
difícil da nossa história. Mas olhemos corajosamente para o que está a
acontecer às famílias: leis permissivas que não valorizam o
aprofundamento dos seus valores constitutivos; leis fiscais que
penalizam a família; a incapacidade de evitar que o drama do desemprego
se abata sobre as famílias; a diminuição da natalidade, que põe em causa
o futuro da comunidade humana que pretendemos salvar. Para quando uma
política de proteção à família?
5.
Uma pedagogia para a paz.
O Santo Padre, na sua Mensagem, alerta-nos para a urgência de uma
pedagogia da paz. A sua primeira expressão é cultural. Todos os agentes
culturais, as universidades e as escolas, os “média”, a Igreja, devem
contribuir para uma transformação cultural que promova a verdadeira paz;
que supõe um novo pensamento e uma conversão ideológica. Diz ele: “o
mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum
novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e
harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem-comum” (12). O
Santo Padre alerta a Igreja: “nesta tarefa imensa de educar para a paz,
estão envolvidas, de modo particular, as comunidades crentes. A Igreja
toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização,
que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo
e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das
sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz,
comprometendo-os na comunhão e na superação das injustiças”. É uma
pedagogia da bondade e do perdão. “É um trabalho lento, porque supõe uma
evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão
nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa (…) a
pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem,
perseverança” (13). É marcada pelo ideal de uma humanidade nova, que
anuncia o Reino dos Céus.
Paróquia de Rio de Mouro,1 de janeiro de 2013
D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa
NOTAS:
1 Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2013, nº 2
2 Ibidem, nº 1
3 Gaudium et Spes, nº 28
4 cf. Pacem in Terrus; Mensagem para o dia Mundial da Paz 2013, nº 3
5 Mensagem para o dia Mundial da Paz 2013, nº 2
6 Ibidem, nº 1
7 Ibidem, nº 3
8 cf. Ibidem, nº 3
9 cf. Ibidem, nº 4
10 cf. Ibidem, nº 5
11 Ibidem, nº 6
12 Ibidem, nº 6
13
Ibidem, nº 7